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Na seção História, a segunda parte: Mainframe - A guerra dos gigantes

História

Oa gigantes guerreavam por espaço

Os gigantes guerreavam por espaço

Série Mainframes — 2 de 4

A guerra dos gigantes

Quando o computador se tornou produto, a disputa deixou de acontecer apenas nos laboratórios. Passou a acontecer nos contratos.

Não havia um dono

“A história do mainframe é maior do que a empresa que venceu a maior parte das batalhas.”

Quando se fala em mainframe, muita gente pensa imediatamente em IBM.

A associação não é absurda.

A empresa teve uma presença enorme, criou padrões duradouros e construiu uma linhagem que atravessou décadas. Mas transformar a história do mainframe em uma história exclusiva da IBM seria como contar a aviação falando apenas de uma fabricante.

Havia uma indústria inteira em movimento.

UNIVAC, Burroughs, NCR, Control Data, Honeywell, General Electric e RCA disputavam espaço nos Estados Unidos. Na Europa, nomes como Ferranti, ICL, Bull e Siemens construíam suas próprias famílias. No Japão, Fujitsu, Hitachi e NEC desenvolveram máquinas, sistemas e mercados.

A Fujitsu usou o nome FACOM em várias gerações de computadores. A Hitachi criou a família HITAC e participou de projetos que levaram computação a reservas de trens, bancos e grandes organizações japonesas.

Mais tarde, Gene Amdahl, um dos arquitetos do System/360, deixou a IBM e fundou uma empresa para vender sistemas compatíveis com a arquitetura da antiga empregadora.

Até a palavra usada para descrever os concorrentes revela o desequilíbrio.

Nos anos 1960, os principais rivais norte-americanos da IBM ficaram conhecidos como os sete anões.

O apelido era injusto com empresas que produziram ideias importantes. Mas mostrava o tamanho da sombra projetada pela IBM.

Ela não era a única.

Era a montanha em torno da qual as outras precisavam escolher um caminho.

Ilhas de metal

“Comprar um computador significava escolher uma ilha.”

Hoje, quando você troca de celular, espera que seus contatos, fotos e aplicativos encontrem um caminho até o aparelho novo.

Nos primeiros anos da computação comercial, essa continuidade estava longe de ser garantida.

Fabricantes criavam arquiteturas próprias. Modelos de uma mesma empresa podiam ser incompatíveis entre si. Programas escritos para uma máquina nem sempre funcionavam em outra. Periféricos, formatos de dados e sistemas operacionais formavam ecossistemas fechados.

A empresa não comprava apenas hardware.

Comprava uma linguagem de instruções, uma forma de armazenar dados, um conjunto de dispositivos, treinamento, programas e uma relação de longo prazo com o fornecedor.

Trocar de fabricante podia significar reescrever aplicações, converter arquivos, treinar equipes e reconstruir procedimentos que haviam levado anos para amadurecer. Para quem acredita em destino, eu fui beneficiado por esta condição. Fui apresentado para o mundo da TI, em 1984, no mesmo dia em que uma maquina FACOM foi substituída por duas IBM. Minha segunda vida começou nesse dia. Já publiquei um crônica sobre isso, na Edição #01 (02/06/2026).

Voltando ao assunto, a disputa não era vencida apenas por quem tinha o processador mais rápido.

Vencia quem convencia o cliente de que aquela ilha continuaria habitável no futuro. Um dos motivos para a hegemonia da IBM foi ter adotado a palavra “compatibilidade”, no início uma ideia embrionária, mas que depois se firmou, como veremos nos tópicos seguintes.

Os anúncios da época falavam de velocidade, memória e confiabilidade. Mas, atrás das especificações, havia uma pergunta mais difícil:

O que acontecerá com tudo o que estamos construindo quando precisarmos de uma máquina maior?

A resposta a essa pergunta mudou o mercado.

A aposta dos 360 graus

“O System/360 não vendeu apenas uma máquina. Vendeu a ideia de continuidade.”

Em 7 de abril de 1964, a IBM anunciou o System/360.

O nome sugeria uma cobertura completa: uma família capaz de atender diferentes tipos de usuário e aplicação.

A proposta era ousada porque a própria IBM mantinha linhas incompatíveis. Um computador voltado à ciência não falava necessariamente a mesma língua de outro voltado à administração.

O System/360 tentou substituir essa fragmentação por uma arquitetura comum.

Uma empresa poderia começar com um modelo menor e crescer para outro mais potente sem abandonar tudo o que havia desenvolvido. Programas e conhecimentos teriam um caminho de continuidade.

Isso parece óbvio hoje.

Na época, era uma aposta gigantesca.

A IBM precisou criar processadores, periféricos, padrões e software. Também precisou administrar atrasos, custos e uma complexidade que quase escapou do controle.

O resultado, porém, foi maior do que uma nova linha de computadores.

O System/360 ajudou a estabelecer uma arquitetura como compromisso de longo prazo.

Esse compromisso mudou o modo como as empresas avaliavam tecnologia.

Já não bastava perguntar quanto a máquina fazia naquele ano.

Era preciso perguntar até onde ela permitiria crescer.

A compatibilidade tornou-se uma forma de proteger investimento.

E, ao proteger o passado, a IBM comprou uma parte importante do futuro.

A máquina ganhou mente

“Enquanto o hardware crescia por fora, o software aprendia a multiplicá-lo por dentro.”

Uma sala cheia de gabinetes impressionava.

Mas o verdadeiro salto aconteceu quando o software começou a aproveitar melhor cada parte daquela estrutura.

Dentro do mundo IBM, duas famílias ajudam a contar essa história.

A primeira descende do OS/360.

Com o tempo, essa linhagem passou pelo OS/VS2, pelo MVS, pelo MVS/XA, pelo MVS/ESA e pelo OS/390 até chegar ao z/OS.

Os nomes mudaram porque a arquitetura, a memória, os modos de operação e o conjunto de serviços também mudaram.

Mas existe continuidade.

Até hoje, o núcleo do z/OS carrega a herança do MVS — Multiple Virtual Storage.

Em linguagem simples, essa família aprendeu a organizar enormes volumes de trabalho dentro de um sistema operacional. Muitos programas, usuários, arquivos e prioridades disputavam recursos sem poder transformar a operação em confusão.

A segunda família seguiu um caminho diferente.

Em 1964, o CP-40 nasceu como um projeto experimental de pesquisa. Ele evoluiu para o CP-67 e, em 1972, para o VM/370.

A ideia parecia quase um truque.

Em vez de apenas dividir memória e tempo entre programas, o software fazia uma máquina física parecer várias máquinas independentes.

Cada usuário ou ambiente podia receber a sensação de possuir seu próprio computador.

Depois vieram VM/SP, VM/XA, VM/ESA e, em 2000, z/VM.

É possível resumir as duas ideias de maneira imperfeita, mas útil:

O MVS aprendeu a dividir o trabalho. O VM aprendeu a dividir a máquina.

Essa virtualização não nasceu com os servidores modernos nem com a nuvem.

Quando grande parte do mercado começou a tratar máquinas virtuais como novidade, profissionais de mainframe já conviviam com o conceito havia décadas.

O valor do incompatível

“Nem todas as ideias vencedoras vieram do lado que dominava o mercado.”

A força do System/360 e de seus sucessores não eliminou a criatividade dos concorrentes.

A Burroughs, por exemplo, desenvolveu máquinas com uma arquitetura profundamente orientada ao software. A Control Data ficou conhecida por sistemas de alto desempenho ligados ao trabalho de Seymour Cray. A NCR aproveitou sua experiência com equipamentos contábeis para atender empresas que já confiavam na marca.

A RCA tentou competir com sistemas que ofereciam algum grau de aproximação com o universo do 360. A Honeywell atacava a ideia de que comprar IBM seria sempre a decisão politicamente segura.

Na década de 1970, a Amdahl entrou em um território ainda mais delicado: vender máquinas compatíveis com o software do System/370.

O cliente podia preservar aplicações e, ao mesmo tempo, escolher outro hardware.

Essa possibilidade revelou uma mudança importante.

O ecossistema havia se tornado tão valioso que já era possível competir dentro dele.

Fabricantes japoneses também avançaram. Fujitsu e Hitachi construíram experiência própria, atenderam grandes mercados e, em diferentes períodos, participaram da produção de sistemas compatíveis ou concorrentes das arquiteturas dominantes.

Algumas empresas desapareceram.

Outras se fundiram.

Sperry e Burroughs, por exemplo, acabariam reunidas na Unisys. Parte da história britânica de Ferranti chegaria à ICL e, depois, à Fujitsu.

Não houve uma linha reta.

Houve aquisições, derrotas, ideias abandonadas e tecnologias que sobreviveram com outro nome.

A vitória invisível

“O fabricante podia vender o gabinete. Quem prendia o cliente era o mundo construído ao redor dele.”

No fim, a guerra dos gigantes não foi decidida apenas pela quantidade de instruções por segundo.

Ela foi decidida por confiança.

Confiança de que a próxima geração executaria o que a anterior executava.

Confiança de que discos, fitas, canais e programas teriam um caminho de evolução.

Confiança de que existiriam pessoas treinadas para operar, corrigir e ampliar o ambiente.

Confiança de que uma empresa não precisaria incendiar o próprio passado para crescer.

É por isso que sistemas operacionais importam tanto nesta história.

O hardware podia ser substituído depois de alguns anos.

O software carregava regras de negócio, cadastros, cálculos e decisões acumuladas por décadas.

Em algum momento, o valor deixou de morar apenas dentro do frame.

Passou a morar nas relações invisíveis entre máquina, sistema, aplicações e pessoas.

Na próxima semana, vamos voltar ao que os olhos conseguiam ver.

Porque toda essa inteligência precisava de um corpo.

E aquele corpo exigia um habitat inteiro. Por vezes, ocupando todo o prédio.

Para onde ir daqui? Fale comigo!

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