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Na seção História, a quarta e ultima parte:
Mainframe - O gigante invisívelHistória

O gigante invisível está em todo lugar
Série Mainframes — 4 de 4
O gigante invisível
O mainframe não sobreviveu por permanecer igual. Sobreviveu porque nunca aceitou permanecer igual.
A morte anunciada
“Toda tecnologia antiga parece condenada quando você observa apenas a aparência.”
Durante décadas, o fim do mainframe foi anunciado com uma segurança impressionante.
Os minicomputadores seriam menores e mais baratos.
Os computadores pessoais colocariam poder sobre cada mesa.
Os servidores distribuídos eliminariam a necessidade de uma máquina central.
A internet mudaria tudo.
A nuvem tornaria o hardware irrelevante.
Cada previsão tinha um pedaço de verdade.
Todas essas tecnologias mudaram o mundo. Muitas tarefas saíram do mainframe. Novos mercados nasceram. Empresas inteiras foram construídas sem comprar um grande computador central.
O erro estava em concluir que uma novidade eliminaria todas as necessidades atendidas pela plataforma anterior.
Em 1991, uma previsão famosa afirmou que o último mainframe seria desligado em março de 1996.
A data passou.
Outras passaram depois dela.
O mainframe continuou trabalhando.
Não porque o mercado tenha carinho por máquinas antigas. O mercado costuma ter pouco carinho por qualquer coisa que não entregue resultado.
Ele continuou porque havia trabalhos para os quais centralização, volume de entrada e saída, integridade, isolamento e continuidade ainda eram valiosos.
O gigante não venceu a morte.
Ele mudou de corpo.
Menor por fora
“A máquina encolheu. A quantidade de mundo dentro dela cresceu.”
As antigas salas cheias de frames não desapareceram de uma vez.
A transformação aconteceu ao longo de gerações.
Circuitos ficaram menores. A tecnologia CMOS reduziu consumo e calor. Canais de fibra substituíram muitos cabos pesados. Funções que exigiam estruturas separadas foram concentradas.
A família System/390 chegou em 1990. Em 2000, a IBM apresentou a arquitetura de 64 bits que levaria o nome z e renomeou sistemas importantes: o OS/390 tornou-se z/OS; o VM/ESA tornou-se z/VM.
O “z” passou a representar uma ambição de disponibilidade contínua, associada à ideia de zero downtime.
Ao mesmo tempo, o mainframe começou a receber Linux, linguagens modernas, APIs, integração com nuvem, ferramentas de desenvolvimento e novas formas de automação.
Em 2025, a IBM lançou o z17, uma geração projetada com aceleração de inteligência artificial e integração a ambientes híbridos. Em julho de 2026, a empresa anunciou o z/VM 7.5, com data de lançamento geral (GA) para setembro, outra evidência de que a linhagem de virtualização continua recebendo desenvolvimento.
Isso não é comportamento de uma plataforma congelada.
Também não é uma história exclusiva da IBM.
A Unisys mantém a família ClearPath, descendente de linhagens ligadas à Burroughs e à UNIVAC, e já oferece caminhos para executar ambientes MCP em nuvem pública.
A Fujitsu ainda mantém a família GS21, embora tenha anunciado um plano para encerrar vendas de mainframes no ano fiscal de 2030 e suporte em 2035.
Fabricantes mudam.
Linhas terminam.
A necessidade de processamento central, confiável e transacional continua crescendo e encontrando novas formas.
O que não aparece
“Talvez sua empresa não tenha um mainframe. Isso não significa que sua vida não passe por um.”
Nos primeiros anos, a máquina era visível.
Clientes visitavam o salão. Fotografias mostravam fileiras de gabinetes. O computador parecia um monumento à modernidade.
Hoje, quase ninguém vê a infraestrutura por trás de uma transação.
Você aproxima um cartão.
Compra uma passagem.
Consulta uma apólice.
Recebe um pagamento.
Movimenta dinheiro.
A interface pode estar no celular, mas o trabalho atravessa várias camadas de sistemas antes de voltar como uma confirmação na tela.
Em muitas organizações, uma ou mais dessas camadas continuam ligadas a um ou muitos mainframes.
Isso não significa que cada banco, loja ou empresa precise possuir uma máquina.
Capacidade pode ser contratada por serviços gerenciados, compartilhada, terceirizada ou consumida através de um fornecedor que mantém a plataforma.
Uma empresa pequena pode depender de um mainframe sem ter um único profissional de mainframe em sua folha.
Ela depende do banco.
Da processadora.
Da seguradora.
Da companhia aérea.
Do governo.
Do fornecedor que mantém uma parte crítica da cadeia.
O mainframe tornou-se invisível porque o usuário passou a enxergar o serviço, não a máquina.
Talvez esse seja o maior sinal de maturidade de uma infraestrutura.
Quando funciona, ela desaparece.
Não é uma Ferrari
“Ninguém compra um mainframe para fazer cavalo-de-pau na avenida.”
Em algumas situações, o mainframe costuma ser comparado a um carro de luxo.
A imagem tenta comunicar preço, potência e exclusividade. Talvez luxo.
Mas ela erra o motivo da compra.
Uma Ferrari pode existir para produzir prazer, prestígio ou desejo. Um Rolls-Royce pode dizer algo sobre a pessoa que ocupa o banco traseiro.
Uma empresa não coloca um mainframe no datacenter para exibi-lo aos amigos.
Ela o escolhe quando precisa resolver um problema de negócio.
Volume.
Disponibilidade.
Segurança.
Consolidação.
Compatibilidade.
Transações que precisam terminar corretamente mesmo quando milhões de outras acontecem ao mesmo tempo.
A decisão pode ser certa ou errada. Pode existir alternativa melhor. Pode haver excesso de capacidade ou um projeto mal conduzido.
Mainframe não é religião.
Mas também nunca foi modismo.
A plataforma entra quando a organização entende que o custo de falhar, perder dados ou não acompanhar o crescimento pode ser maior do que o investimento para evitar isso.
Por isso, aqui cabe uma provocação:
Usar mainframe não é privilégio reservado às 500 maiores empresas do planeta. Pode ser parte do caminho de quem pretende se tornar uma delas.
Não como regra universal.
Nem toda empresa precisa executar sua carga total nessa plataforma.
Mas crescer significa encarar problemas que exigem escala, controle e continuidade. Em algum momento, diretamente ou através de um parceiro, a organização precisará consumir infraestrutura capaz de sustentar esse peso.
O passado executa hoje
“Compatibilidade é uma forma de respeito pelo investimento que já foi feito.”
Uma das forças do mainframe é a capacidade de evoluir sem exigir que tudo seja descartado a cada geração.
Isso cria uma situação curiosa.
Aplicações escritas há décadas podem continuar participando de processos modernos. Dados antigos convivem com APIs. COBOL conversa com celulares. z/OS trabalha ao lado de Linux. z/VM hospeda ambientes que os primeiros pesquisadores do CP-40 dificilmente poderiam visualizar.
Para quem olha de fora, isso parece contradição.
Como algo pode ser antigo e moderno ao mesmo tempo?
A resposta está na diferença entre idade e imobilidade.
Uma cidade pode ter séculos e continuar viva porque substitui redes, muda edifícios e abre novas vias sem demolir toda a memória a cada década.
O mainframe funciona de modo parecido.
Ele carrega camadas.
Algumas são antigas.
Outras foram adicionadas ontem.
O desafio não é fingir que o passado não existe. É impedir que ele se transforme em prisão.
Modernizar não significa necessariamente retirar tudo da plataforma.
Pode significar expor funções por APIs, adotar novas ferramentas, automatizar operações, revisar aplicações, integrar nuvens e decidir com critério onde cada carga deve viver.
O mainframe sobreviveu porque aprendeu a conversar com mundos que nasceram depois dele.
No pulso do futuro
“A potência que ocupava uma sala caminha para o pulso. A responsabilidade continua no centro.”
É provável que seu filho ou neto carregue no pulso uma capacidade de processamento que faria engenheiros de outras décadas perderem o sono.
Mas isso não transforma literalmente um relógio em mainframe.
Mainframe não é definido apenas por potência ou tamanho.
Ele é uma combinação de arquitetura, capacidade de entrada e saída, isolamento, disponibilidade, segurança, administração de cargas e compromisso com transações.
O objeto no pulso será pequeno.
A rede que permite confiar nele será enorme.
Quando esse dispositivo autorizar um pagamento, confirmar uma identidade, comprar uma passagem ou acessar um serviço público, algum sistema central precisará verificar, registrar e responder.
O futuro não será formado apenas por computadores cada vez menores.
Será formado por bilhões de pequenos computadores dependendo de centros de confiança que quase ninguém vê.
Talvez os mainframes do futuro não se pareçam com as máquinas que chamamos de mainframe hoje.
Isso já aconteceu antes.
O main frame começou como uma estrutura metálica.
Depois, o nome passou ao computador inteiro.
Mais tarde, a máquina perdeu grande parte do tamanho que havia inspirado a palavra.
O metal mudou.
A missão permaneceu.
O gigante continua
“Dinossauros desapareceram. Mainframes aprenderam novas formas de existir.”
Começamos esta série mostrando a origem do nome.
Vimos governos e empresas cercados por dados que já não conseguiam processar à mão.
Acompanhamos o computador deixando laboratórios e assumindo folhas de pagamento, estoques, reservas e contas.
Conhecemos uma indústria com muitos fabricantes, arquiteturas rivais e sistemas operacionais que aprenderam a dividir trabalho e multiplicar máquinas.
Descemos para ver o que tinha debaixo do piso.
Encontramos cabos, ar, água, pó, calor e uma infraestrutura que transformava a instalação em projeto de engenharia.
Chegamos ao presente.
O mainframe já não precisa ocupar o centro da fotografia para ocupar o centro de uma operação. Os novos z17, montados em rack, já se confundem com a paisagem.
Essa talvez seja a melhor resposta para quem ainda os chama de monstros pré-históricos.
O Mainframe continua vivo, apesar da idade.
E está vivo porque passou o último século mudando.
Porque, enquanto empresas precisarem processar o que não pode parar, perder ou chegar errado, haverá espaço para plataformas construídas em torno dessa responsabilidade.
O gigante não desapareceu.
Ele apenas ficou bom em trabalhar sem ser visto.
Esta série termina hoje, mas o assunto jamais vai se esgotar. Quer sugerir algum tema para o mês de Setembro?
Não esqueça: eu estou disponível para fazer o parto ou manter saudável qualquer instalação de z/VM, garantindo que mainframes permaneçam vivos gerando valor.
Para onde ir daqui? Fale comigo!



